logo

Notícias

04
set

Refugiados pelo mundo: muito mais que a morte de uma criança síria

O mundo está em choque com a foto do pequeno garoto sírio Aylan Kurdi, de três anos, que foi encontrado morto no litoral da Turquia. Ainda que a história seja realmente comovente, poucos lembraram nas manchetes que outras 11 pessoas morreram graças ao mesmo barco. O caso de pessoas que precisam se refugiar é muito maior e mais complexo; essa foi apenas mais uma história trágica entre milhares só neste ano.

Na verdade, o caso do menino é mais comum do que parece. A maior parte das pessoas que buscam refúgio hoje em dia, assim como o pequeno Aylan, é proveniente da Síria. Além disso, no ano passado, 51% das pessoas que buscavam refúgio tinham menos de 18 anos. Aylan é um retrato de uma estatística triste para o mundo e de uma realidade que é muito mais comum do que a maior parte das pessoas imaginam, tanto na história, quanto atualmente.

 

MAPA PSD (1)

 

Para quem foge

Atualmente, existem quase 20 milhões de pessoa sob refúgio no mundo, mas o que leva uma pessoa a se arriscar tentar viver em outro país? Normalmente não se trata de uma escolha. A história nos mostra que muitas coisas podem acabar fazendo com que pessoas precisem fugir de sua terra natal: perseguições políticas, religiosas e raciais, escassez de recursos e conflitos são os maiores geradores de refugiados. E a luta pela sobrevivência tem uma dimensão muito grande para os refugiados. Além de passar pelas etapas perigosas da fuga em si – que muitas vezes envolvem perseguições de grupos armados, meios de transporte precários e ultrapassar fronteiras não simpatizantes da causa – e de encontrar um novo país que os acolha, os refugiados precisam passar por uma série de preconceitos e dificuldades para sobreviver. Muitas vezes são mal vistos pelos nativos de seu novo país, que acreditam que os estrangeiros fugiram de seus países para não enfrentar a justiça por crimes que cometeram, ou mesmo que eles estão em seu país para disputar empregos e espaço na sociedade.

 

Para quem acolhe

Receber pessoas em fuga demanda compromisso do governo e da sociedade locais. Além de proteção, a assistência deve envolver indicação de moradia, emprego e inserção social desses indivíduos. Também é preciso ter documentos de identificação e regularização de direitos e deveres para esses refugiados. Some a isso a questão dos fatores culturais de adaptação – envolvendo língua, religião, hábitos e crenças – e a missão de abrigar refugiados fica ainda mais complexa. Com tantos fatores em jogo, o rearranjo social torna-se trabalhoso, exige adaptação, esforço coletivo e, acima de tudo, receptividade da nação-abrigo – o que muitos países usam como justificativa para fechar suas fronteiras ao socorro internacional. Como a estadia de refugiados é legalizada para durar enquanto eles não puderem voltar para seus países, muitos deles podem passar o resto da vida no país novo, ter filhos e criar raízes – outro fator que afasta vários países da lista de acolhedores.

 

Veja aqui um mapa interativo com casos de refugiados pelo mundo: http://www.therefugeeproject.org/

 

E o Brasil?

A lei brasileira de refúgio criou o Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE), órgão responsável pela formulação de políticas para refugiados no país, que envolvem desde definir a elegibilidade – quem pode ou não entrar – à integração local.
De acordo com o CONARE, o Brasil possuía, até o fim de 2014, mais de 7 mil refugiados de 81 nacionalidades distintas, principalmente de países como Síria, Colômbia, Angola e República Democrática do Congo. E os números não param de aumentar. Dados mostram que o número total de pedidos de refúgio aumentou mais de 930% entre 2010 e 2013. Só em 2014, o Brasil recebeu mais de 8 mil pedidos de refúgio.
Se você está surpreso com a presença do Brasil entre os países que aceitam refugiados, vai ficar ainda mais surpreso com o que esses refugiados relatam. Ao contrário do que nossa imagem internacional sugere, os casos de xenofobia no Brasil são recorrentes. Muitos refugiados relatam que sofrem preconceito e enfrentam dificuldades às vezes bem próximas das que viveram em seus países – como os que acabam tendo que morar em periferias ou favelas e convivem diariamente com nossos índices de violência. Mesmo no Brasil, um país supostamente receptivo e miscigenado, os refugiados encontram dificuldades.

 

E se acontecer no meu governo? Como lidar?

Para um governante, abrigar refugiados pode ser um problema dos grandes. Tanto pela dificuldade de realocar pessoas desamparadas do ponto de vista estrutural e econômico, quanto pela dificuldade de inserir esses indivíduos no conjunto social do país. Receber refugiados é um desafio para a política nacional e internacional. Entretanto, embora difícil, não é um aspecto que pode ser ignorado politicamente – mesmo que desconsideremos o lado humano do cenário para pensar apenas estrategicamente, deixar algo dessa magnitude de lado pode ser plantar para si mesmo grandes crises de gestão e de imagem.
O melhor caminho, tendo em vista que refugiados sempre entrarão no país – legal ou ilegalmente -, é estabelecer uma comunicação de agenda positiva com a população. Valorizar os benefícios que a vinda deles podem trazer para a sociedade pode não apenas apaziguar tensões, como também capitalizar o lado humanitário de receber refugiados para a imagem de um líder. Em vez de provocar uma crise, o governante será visto como agregador e, de quebra, ajudará milhares de pessoas fugindo de guerras e violência.

 

Fontes:
http://www.unhcr.org.uk/about-us/key-facts-and-figures.htmlhttp://www.acnur.org/t3/portugues/recursos/estatisticas/dados-sobre-refugio-no-brasil/
http://www.theguardian.com/news/datablog/interactive/2013/jul/25/what-happened-history-refugees#Israelites
[LoginRadius_Share]
Comentários ( 0 )

    DEIXE SEU COMENTÁRIO

    Seu endereço de email não será publicado. Os campos obrigatórios estão marcados * *